Semeando água para o presente e o futuro

Por Andrea Pupo e Alexandre Uezu 


Você já parou para pensar na relação que existe entre as florestas nativas e um bom prato de comida? E acredita que suas atitudes de consumo são responsáveis pela evasão rural no seu município? E pelas mudanças climáticas? 

Essas e outras perguntas movem a equipe do projeto Semeando Água do IPÊ - Instituto de Pesquisas Ecológicas. Há 10 anos o instituto vem pesquisando e trabalhando na região do Sistema Cantareira de abastecimento de água, um dos maiores do mundo, que abrange 5 municípios no sul de Minas Gerais e outros 7 localizados do interior de São Paulo.

Apesar de sua importância por abastecer cerca de 40% da Região Metropolitana de São Paulo (cerca de 7,6 milhões de pessoas) e mais 5 milhões de pessoas no interior, a região do Sistema Cantareira apresenta baixa resiliência às variações climáticas, aumentando os riscos de novas crises hídricas, como a que aconteceu entre os anos de 2014 e 2015, quando os reservatórios chegaram a menos de 5% da capacidade. Essa condição é fruto do uso inadequado do solo que historicamente se instalou na região. Os diagnósticos realizados previamente pela equipe do projeto a partir de fontes primárias (p. ex. levantamentos de campo com os proprietários rurais) e secundárias (dados oficiais de universidades, órgão públicos e outras instituições) mostram uma realidade alarmante por três motivos principais: 1) boa parte da região (46%) é ocupada por pastagens degradadas em propriedades rurais de baixa produtividade, que usam metodologias ultrapassadas de manejo do pasto; 2) houve desmatamento em 60% das áreas de preservação permanente hídricas (APP), que deveriam proteger as nascentes e os corpos d'água; 3) os rendimentos nominais mensais na maior parte da região é inferior a um salário mínimo, o que pode intensificar processos como a evasão rural e a especulação imobiliária.

Por outro lado, a região tem potencial de se tornar uma referência de paisagem sustentável, equilibrando desenvolvimento rural e a conservação da biodiversidade e serviços ecossistêmicos (principalmente a água), impulsionada por uma cadeia de valor que se baseia no comércio justo e no consumo consciente.

As Áreas de Proteção Ambiental Cantareira e Fernão Dias e os Parques Estaduais que formam o Sistema de Áreas Protegidas do Contínuo Cantareira compõem um mosaico de Unidades de Conservação que garantem conforto climático, belas paisagens, lazer e produção de água com qualidade. Dessa forma, toda a área do Sistema Cantareira (cerca de 227 mil hectares) é considerada prioritária para ações de conservação da biodiversidade.

É neste cenário que o projeto Semeando Água atua para promover o uso sustentável do solo através da produção agroecológica e viabilizar a comercialização da produção com os consumidores na capital e Região Metropolitana de São Paulo. A ideia é conectar os beneficiários da água com os produtores rurais da região do Cantareira, formando um ciclo virtuoso de geração de benefícios mútuos baseado em segurança alimentar, conservação da biodiversidade, dos serviços ecossistêmicos e justiça social.

Com ações de restauração florestal, implantação de sistemas produtivos agroecológicos, educação ambiental e financeira com cursos de capacitação, ações com educadores e estudantes, comunicação, desenvolvimento de cadeias produtivas e políticas públicas, a atuação de longo prazo do IPÊ na região é crucial para estabelecer parcerias e manter contato com diversos atores (proprietários rurais, técnicos extensionistas, Agência Nacional de Águas, Comitês das Bacias Hidrográficas dos Rios Piracicaba, Capivari e Jundiaí, SABESP, Universidades, Secretarias de Educação e de Meio Ambiente do Estado e dos municípios do Sistema Cantareira). Dessa forma, o projeto está integrado ao contexto local e pode contar com a participação desses grupos para planejar e influenciar ações que sejam importantes para melhorar as condições socioambientais da região. Além disso, nas ações diretas com produtores rurais, como em cursos de capacitação, a equipe tem a oportunidade de captar as necessidades dos proprietários e de realizar com eles o planejamento das adequações ambientais em mapas georreferenciados, possibilitando o direcionamento das atividades, sobretudo as que visam a ampliação de escala. 

As mudanças socioambientais efetivas que o projeto Semeando Água pretende alcançar são: 

  • aumento da infiltração e armazenamento da água no solo para garantir segurança hídrica; 
  • aumento do armazenamento de carbono para contribuir com a mitigação das mudanças climáticas; 
  • produção de alimentos livres de agrotóxicos para garantir segurança alimentar e aumento de renda; 
  • criação de vias curtas de comercialização para reduzir os custos de transporte, favorecendo economicamente as duas pontas da cadeia e a redução de emissão de gases de efeito estufa. 

A equipe do projeto também se preocupa (e se ocupa) continuamente com a captação de novos recursos para a realização de mais ações com a confiança de que no futuro os produtores rurais irão se organizar em comunidades sustentáveis e terão autonomia para definir padrões de produção, de consumo e de bem-estar a partir da sua própria cultura e história, levando em conta o ambiente natural. Espera-se que eles sejam sujeitos (e não objetos) do desenvolvimento sustentável, que coloquem a qualidade de vida como prioridade nas políticas públicas e que possibilitem às pessoas compreender que o desenvolvimento e o meio ambiente são meios e não fins. 

Voltando às perguntas do início, as transformações que o projeto Semeando Água pretende se aplicam a qualquer contexto, infelizmente, diante do cenário de degradação ambiental e das mudanças climáticas. Portanto, vale lembrar que as nossas escolhas do dia-a-dia são muito importantes. Por exemplo: ao comprar alimentos da produção local, em detrimento daqueles que viajam quilômetros até chegar aos pontos de venda, você estará contribuindo para fortalecer o trabalho do produtor rural que protege o solo, a água e a biodiversidade, proporcionando qualidade de vida para a família dele e para a sua.

Se você também se importa com a transição para sociedades mais conscientes e sustentáveis pode começar, sempre que tiver oportunidade, a explicar às crianças (e aos adultos) de onde vem a água, o que é polinização, o papel das florestas na saúde e no bem-estar, etc. Essas ações são simples, não têm custo e você pode usar as redes sociais.

São pequenos desafios que já fazem a diferença agora, além de serem fundamentais para construir o futuro que queremos. 

Figura: Área em restauração próxima a represa Atibainha - Projeto Semeando Água (Crédito: Cibele Quirino)



Para saber mais sobre o projeto Semeando Água acesse: semeandoagua.ipe.org.br

Os estudos do IPÊ sobre a região do Sistema Cantareira estão organizados no Atlas do Sistema Cantareira disponível em: https://semeandoagua.ipe.org.br/projeto/publicacoes/

**O texto acima é um artigo de opinião, e não representa a opinião de todos os membros do NewFor ou de seus órgãos financiadores.

Bio: Andrea Pupo é bióloga e pedagoga, mestre pela Escola Superior de Conservação Ambiental e Sustentabilidade (ESCAS/IPÊ) . É pesquisadora e coordenadora de projetos de educação ambiental no IPÊ - Instituto de Pesquisas Ecológicas. 

Alexandre Uezu é biólogo, mestre e doutor em Ecologia pela Instituto de Biociências da Universidade de São Paulo. É pesquisador do IPÊ, coordenador do Projeto Semeando Água e professor da Escola Superior de Conservação Ambiental e Sustentabilidade.

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